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CAPÍTULO ONZE

Arraial Velho – 2003

 

                    Partimos hoje pela manhã, alias, quase madrugada. Já vi que Xico não vai ser boa companhia. Já disparou na frente e não tive noticia dele por onde passei. Saindo de Sabará, a primeira parada é no Arraial Velho, a pouco mais de cinco quilômetros. Nada demais. Uma igreja e um monte de casas. A estrada segue margeando e subindo o Rio das Velhas.

                    Já estou sentindo uma dor, quase insuportável, nas nádegas. Por que nenhum aventureiro, de livro, relata essas dores? Dizem que se acostuma com o tempo. Será que Dom Quixote sentiu dor nos braços? Ele também não estava acostumado e era muito mais velho do que eu. Já repararam que ninguém relata as coisas mais insignificantes nas aventuras? Justamente elas, que tiram-nos, mortais, do sonho e nos colocam na dura realidade. Elas que podem inviabilizar uma viagem de prosseguir. Será que nenhum cavaleiro andante tem hemorróidas?

                    Com muito sacrifício cheguei na fazenda do senhor Oto, onde encontrei um muro do século XVIII e uma ruína, que dizem, era a casa do Borba Gato. O caminho não tem nenhuma espécie de sinalização, e se perder é muito fácil. O Xico deve estar perdido, pois ninguém no caminho me dá notícia dele.

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                    Era uma íngreme ladeira. O cavalo já dava os primeiros sinais de cansaço. Apeado, seguia caminhando ao lado do animal, com as mãos firmes sobre as rédeas, conduzindo-o morro acima.

                    Primeiro foi o barulho. Depois um trotar irritante. Não poderia crer encontrar alguém naquela estrada, praticamente abandonada, quase uma trilha, entre Sabará e Raposos. Algumas léguas atrás haviam me avisado que por ali daria com burros n’água.

                    Primeiro o barulho. Depois a poeira. Agora, finalmente a figura. Um cavaleiro de elmo negro e armadura colorida. Pelos trajes, poderia era-lo por um bufão, um bobo da corte em montaria, mas pela velocidade que vinha ao meu encontro, tinha a determinação de um cavaleiro.

                    Eu, desmontado de meu corcel, com as armas no alforje, seria uma presa fácil. Lancei mão do recurso dos que estão em inferioridade na luta: demonstrei, prontamente, não ser uma ameaça.O cavaleiro e seu cavalo, diga-se de passagem, um animal admirável, com nítida força superior ao meu pobre Rucinante, pararam diante de mim, impedindo meu caminho.

                    - Para aonde vai? – vociferou o cavaleiro, com sua voz abafada pelo elmo negro, que nunca vi igual.

                    - Sigo, cavaleiro, o caminho dos justos, a procura de aventuras. – Respondi com a firmeza de quem sabe o que está fazendo.

                    Lançando um olhar desdenhoso sobre meu fiel Rucinante, falou:

                    - E até onde pretende chegar em cima disso?

                    Não pude deixar de lançar um olhar piedoso à minha pobre montaria, que andrajoso de apetrechos, parecia, realmente, incapaz de tantas proezas.

                    - Sigo a Estrada Real, a serviço de sua majestade, o rei.

                    - Há! – fez troça o infame, que num gesto estranho cessou o trotar de sua montaria que, não sei a custa de qual magia, continuava a emitir um trotar infernal mesmo parada. – Por aqui, nem eu, com muito mais potência, consegui passar. O que dirá você, com está montaria mirrada. E ainda mais a serviços de reis inexistentes e por estradas acabadas.

                    Ô, infame dos infames, mesmo jurando não duelar com impostores e fanfarrões, lancei mão de minha lança, e já estava disposto a transpassar o infeliz, quando, misteriosamente, minha arma transformou-se em um guarda-chuva. O cavaleiro acionou o pocotó infernal de sua máquina, deixando-me, de lembrança amarga, uma nuvem de poeira e fumaça.

                    Onde está Sancho que não vem ao meu auxílio?

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