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CAPÍTULO DEZOITO

??? – Somália - 1854

                    A lança impedia Burton de falar, mas felizmente não travava seus pensamentos. Jogado no solo, semimorto, a única coisa de que conseguia lembrar era da cidade sagrada de Harar. Novamente havia sido pioneiro. E apesar de praticamente não ter mais uma boca, conseguiu esboçar um sorriso. Novamente ele era o primeiro inglês a chegar em uma cidade sagrada. Na verdade, o primeiro homem branco a ser vistos naquela região do Chifre oriental africano, conhecida como Somalândia, terra dos Somalis, que compreendia todo o Nordeste do continente negro, abrangendo o que no futuro seria Etiópia e a Somália.

                        O sangue escorria pelo ferimento e as lembranças pela cabeça. Aquela determinação da Companhia de mandá-lo para o selvagem desconhecido, vinha ao encontro de seu desejo secreto de encontrar reinos perdidos. Ouvira falar de um reino, no coração africano, aonde um rei católico comandava um povo prospero e feliz. Mas na verdade encontrara um reino muçulmano atrasado e feroz. Tão atrasado que se deixaram subjugar pelos disparos efetuados pela Smith & Wesson de Burton. Todos lançaram-se ao chão, diante dos disparos do “Deus trovão”. Todos, relembrava Burton, menos o mais forte guerreiro da tribo somali. Desafiado a provar seu poder, Burton fora obrigado a duelar com cacetes rudimentares. Pouco diferia um cacete de uma espada, e Burton aplicando todas as técnicas conhecidas de esgrima, lançou o guerreiro ao solo, não sem antes lhe abrir a fronte. Demonstrando sua superioridade, Burton gozou de relativa liberdade junto aos seus anfitriões, chegando a empreender viagens mais viscerais a terra, ainda a procura do reino perdido de Prestes João, o católico lendário. Mas com o passar de longos quatro meses, período em que fora dado como morto na Inglaterra, as relações entre anfitrião e convidado começaram a fazer água. Confirmando o ditado irlandês preferido de Burton: “Após alguns dias, visitas e peixes dentro de casa, começam a feder”. Os Somalis começaram a desacreditar no seu novo Deus, e começaram a crer que aquele ser opaco era na verdade um intruso inimigo, investigando suas defesas e riquezas.

                    Burton sentia a língua inchar dentro da boca, transpassada por uma farpa da lança. O seu palato afetado, não conseguia precisar se o sabor que estava chegando era o da morte. Novamente o interior selvagem assumia sua mente. Burton agora se lembrava da fuga. Aproveitando o breu da noite, havia deixado a aldeia somente com a roupa do corpo. Foram dias inteiros, incontáveis, de fome e sede. Não bastasse a perseguição implacável dos somalis, que permaneceram no seu encalço, certos agora, de que o Deus era um espião, Burton ainda contava com freqüentes encontros com o rei da selva. Por muita sorte, o símbolo da realeza britânica não se fartou com o súdito perdido. Sorte de Burton, que os leões também consideravam a comida inglesa insossa.

                    As formigas agora invadiam a face do moribundo inerte. Ele lembrou, que elas já lhe haviam sido apresentadas, na fuga do reino do Rei Berbena. Burton, assim como fizera, na península arábica, utilizou-se de um elaborado e perfeito disfarce, para chegar até aquele remoto e proibido reino. Fez-se passar, novamente, por um devirxe, chegando até mesmo a tomar lugar no conselho do rei local. Mas agora tudo era lembrança de um fracasso.

                    Fugindo dos seus perseguidores, conseguira alcançar o litoral, aonde seus companheiros de viagem aguardavam-no apreensivos. O também capitão Speke, o jovem tenente Stuart e o não tão jovem, tenente McGregor. Ao ouvirem seus relatos sobre o interior fascinante, ficaram, Speke particularmente, decididos a retornar imediatamente, com uma tropa para subjugar aquela raça. Speke e Burton passaram os dias seguintes a planejar a expedição, além de se digladiarem em duelos de egos, sobre o reino de Preste João, e da rainha de Sabá, que segundo Speke ficava naquela latitude. Burton, no seu intimo, também suspeitava, que o Reino, da suposta amante de Salomão, ficasse naquelas coordenadas, assim como a própria Mina do rei bíblico. Mas para ele era difícil assumir, que Speke pudesse estar certo em qualquer coisa que fosse. Eram rivais de egos inflados e porque não dizer inflamados.

                    Já inflamados estavam os ferimentos de Speke, que Burton podia avistar, esparramado imóvel, a poucos metros. A tentativa de penetrar, novamente para Burton, no interior da Somalândia, resultou na cena dantesca que ele tinha sob seus olhos. A expedição fora desfeita pelas lanças somalis. Todos carregadores e soldados conseguiram escapar. Mas os oficiais, alvo preferencial dos lanceiros somalis, estavam ali a pensar em suas aventuras passadas, e talvez, derradeiros pensamentos.

                    A batalha foi épica e os oficiais ficaram na formação clássica em círculo ensinada e discutida a centena de anos na escola militar britânica. Uma manobra executada em alguma batalha grega. O problema era que os guerreiros somalis não haviam estudado as guerras médicas ou do peloponeso. Para eles aquele aglomerado de uniformes vermelhos parecia um alvo perfeito.

                    Burton e Speke resistiram bravamente descarregando todos cartuchos disponíveis, mas no final a chuva de azagaias imperou, derrubando todos os oponentes ingleses.

                    Speke, apesar de ter onze ferimentos por todo o corpo, expressava alguns movimentos esporádicos, acompanhados de comentários incessantes que irritavam Burton.

                    - Capitão Burton, realmente... arghh – disse cuspindo sangue – agora...puu.. eu tenho certeza sobre a real localização do reino de Sabá....Raaarrrrr puts... se o caro colega pôde notar os traços desses somalis.... pode ter notado, uma certa similaridade com os traços do povo que habita o sul de Israel.....arrgh rrrarrrra puts... legítimos e comprovados descendentes da rainha...

                    Burton, impossibilitado de falar que estava, pela lança que lhe atravessava ambas as bochechas, lastimou a péssima pontaria daqueles guerreiros, que de onze ferimentos, não conseguiram acertar nenhum órgão vital do tagarela Speke. Pensou em pedir a intervenção do tenente Stuart, mas notou que este estava eternamente inerte, com uma única e certeira lança cravada no peito. Speke continuava a tecer seus comentários inócuos e Burton delirava, esperando, com grande satisfação, que a morte viesse tira-lo daquele tormento. As imagens vinham em sua mente, num turbilhão de cores e sons. Via uma caverna escura, de onde logo depois surgiu uma luz. Agora um gigante negro lhe apertava contra o peito, que logo em seguida se transformava em um elefante com quatro braços. Via agora sua infância nos campos franceses e as viagens a bota italiana. Via sua coleção de cem botas de couro... ... Via agora toda a vida passar diante de seus olhos fechados. Já não ouvia mais Speke. Uma mão o tocava. Já certo de que o guardião da Morte vinha buscá-lo para o paraíso, aonde quatorze virgens o esperavam com quitutes e néctares, ouviu o soar de uma trombeta. Não a do juízo final, quando Deus iria julgar-lhe os pecados, mas uma desafinada cornetinha de um pequeno destacamento do exercito de Sua majestade.

                    - Richard! Pode me ouvir? – balançava-lhe o ombro o velho oficial Mcgregor. - Graças ao bom Deus, você está vivo. Infelizmente o jovenzinho não teve a mesma sorte. Mas fique tranqüilo, parece que você vai sobreviver.

                    Burton já começava a desfalecer, devido à dor provocada pelo médico, que acabara de arrancar-lhe a lança da cara, levando junto quatro dentes molares. Antes de entregar-se a um desmaio reconfortante, pode lançar, da padiola em que estava, um olhar para a maca vizinha, aonde vislumbrou uma falante criatura, que gesticulava como uma marionete.

                    - Fique tranqüilo – reconheceu a voz de Mcgregor – o capitão Speke também sobreviveu. Graças ao bom Deus.

                    Antes de desmaiar definitivamente, Burton teve a certeza que não acreditava no mesmo Deus daqueles homens.

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