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CAPÍTULO 24

Santo Antônio da Paraibuna – Brasil – 1867

“Ouso predizer que muitos dos que ainda estão vivos percorrerão esta terra numa vertiginosa velocidade de sessenta milhas por hora, quando nós, em nossos primitivos meios de transporte, vencemos esta distância em quase uma semana. Talvez possam voar? Quem sabe?”

 Richard Francis Burton - 1867

 

                    Eram seis horas da manhã de um dia quinze de junho frio, mas ensolarado. A diligência começou a ranger suas rodas pela estrada chamada União e Industria, que corria paralela a antiga Estrada Real. O veiculo inglês, cocheado por um alemão e atrelado abrasileiradamente, com dois pares de burros, deixou a porta do Hotel Inglês, o mais suntuoso de Petrópolis. A bordo três toneladas de carga humana e inanimada. O casal Burton se acomodava espaçosamente em uma das poltronas, enquanto na outra, quatro cavaleiros dividiam o exíguo pedaço de couro alemão. No exterior, Chico dividia o assento com o cocheiro, que conduzia o conjunto praguejando contra todos os passantes.

                    O carro de excursão coerentemente batizado de “Celeridade” desceu a serra sinuosa ganhando o vale do rio Piabanha. O trecho já era rotineiro naquela época, ligando a cidade de Petrópolis a Juiz de Fora. O costume fazia o alemão exercer seu oficio com grande maestria. Imprimia tanta técnica aos pobres burricos, com chicotadas certeiras e calculadas, que os mesmos pareciam árabes puros-sangues. Por milagre não deixava os fardos, atrelados na traseira do veiculo, esparramados pelo caminho. O trafego de burros, tropeiros e alguns tropeiros-burros era intenso o que tornava o necessário zig-zag nauseante aos passageiros. Somente Burton se mostrava no controle de seu estômago.

                    Burton não tinha tempo para enjôos, pois mantinha os olhos grudados em todos os detalhes apresentados pela janela. Chamava-lhe agora a atenção, os animais que cruzavam a carruagem, ora com a cabeça ao leste, ora com as ancas, sobrecarregadas, viradas em direção ao mar. Dirigiam-se para o interior com sal e inúteis quinquilharias e retornavam carregados de café e algodão. Burton se espantou ao perceber que o algodão superava o café. Sem que os demais ocupantes percebessem, ele puxou o mini bloco, oculto em sua manga esquerda e com o pequeno crayon que levava sempre no colete, redigiu comentários para Mr.V. Sua compenetrada escrita foi interrompida pela voz que invadiu o receptáculo oscilante. Com o susto e o balanço da diligência, Burton deixou o pequeno lápis escapar das mãos, indo se alojar debaixo da bota do locutor, dono da voz.

                    - É impressionante como esses animais, aparentemente inúteis, transportam toda a riqueza deste império. – disse o Major Newdigate, um dos ocupantes do banco posicionado na direção da estrada – Assemelham-se a verdadeiros dromedários tropicais, com suas gigantescas corcovas artificiais.

                    - Considero um absurdo que essa tropa, de navios do deserto, seja necessária em um país que já poderia ter manifestado seu potencial ferroviário. – restabelecendo-se Burton enquanto com a ponta de sua bota tentava puxar, para perto de si, o crayon perdido. - O Brasil é grande comprador de locomotivas, mas talvez tenha esquecido de compra os trilhos.

                    - Stupid people – grunhiu o canadense que apesar de demonstrar estar para poucos amigos, não desapegava o ouvido da conversa alheia.

                    - Mas eu acredito que em breve este país será a maior malha ferroviária do Mundo, pois para isso terra não falta. – previu com eloqüência o Sr. Morrit - Nossa pequena Inglaterra, tão carente de espaço já é toda trilhada, não vejo porque em breve aqui não se possa fazer o mesmo.

                    - Com certeza o prodígio se dará, caro amigo – concordou Burton apenas para satisfazer seu futuro hospedeiro em Juiz de Fora – Mas temo que não será neste século, talvez no próximo.

                    - Mas a culpa desse atraso, em cortar esse imenso país com a força do vapor, com certeza, é desses arrogantes franceses – adentrou no colóquio o Sr.Liverpool, enquanto pela janela era possível se avistar engenheiros imperiais franceses em suas medições intermináveis – Espero não estar ofendendo nenhum dos aqui presentes.

                    - Stupid people too, this France’s man – caprichou no sotaque o rabugento engenheiro canadense a bordo.

                    - O imperador Pedro está cedendo muito espaço para os franceses – disse o Major Newdigate esmagando o pequeno crayon debaixo de sua bota – não sei porque, nós ingleses, não estamos a construir essas estradas pavimentadas.

                    - Por pura incompetência Major - lamentou Burton encarando com tristeza o fim de seu lápis tão útil – Temos que admitir que as técnicas francesas são superiores as nossas. Nosso país se dedicou a ferrovia e esqueceu-se de aprimorar o mais clássico dos caminhos.

                    - Dizem que o imperador não entregou o trabalho aos ingleses, com medo que só fizéssemos contramão – gargalhou o animado Sr. Morrit – Alias, alguém sabe me dizer à procedência desse cocheiro? Essa velocidade está vertiginosa.

                    - Ele me pareceu prussiano – respondeu Sr.Liverpool – Os alemães estão chegando aos milhares e ocupando todas as funções serviçais, de maior nível técnico. Assim é melhor. Não me sentiria seguro sendo conduzido por um negro desmiolado. Mas esse alemão é deveras rápido.

                    - Stupid germany – resmungou o canadense, que estava indo para o interior do Brasil sob ordens francesas.

                    - Os alemães com sua pertinente frieza conseguem se adaptar muito bem ao rigor desse país. Mas os norte-americanos não têm tido a mesma sorte. Soube de alguns que quase morreram a mingua por não conseguirem trabalho decente aqui. – discursou Burton com a convicção de suas informações consulares – O Brasil em breve terá que organizar esse crescente fluxo imigratório.

                    - Em São Paulo, já presenciamos o destino trágico, desses imigrantes despreparados e famintos de oportunidades – entrou na conversa a Sra. Burton apesar do grande enjôo provocado pelo sacolejar da carruagem – Fui obrigada a fundar um albergue para abrigar dezenas de americanos, alemães e italianos sem teto. – terminando a frase com uma golfada que travou entre os dentes.

                    - Stupid everybody - criticou o canadense, recriminando também aquela mulher que se atrevia a intrometer-se na conversa dos homens.

                    - Os italianos me parecem pouco confiáveis, até mesmo porque não se entendem entre eles – disse o Major, enojado, fingindo não notar o vômito retido da Sra. Burton – O senhor acredita, Mr. Burton, que essa unificação italiana irá durar?

                    - Realmente os italianos são um povo à parte. Como uma bota daquele tamanho consegue abrigar tanta divergência. – falou Burton mirando sua bota italiana, uma de suas preferidas – Mas acredito que a unidade dure alguns anos. Mas temo que não haverá povo para cantar o hino da nação unificada, aja vista o crescente afluxo de italianos para o novo mundo.

                    - É verdade que o tal Garibaldi andou aqui pelo Brasil em luta separatista? – argüiu o S. Morrit como se já soubesse a resposta – dizem até que se amasiou com uma bela cria da terra. Se é que os senhores me entendem?

                    - Mas não era uma argentina a esposa do Garibaldi? – criou dúvida o Sr. Liverpool - ou talvez uma paraguaia.

                    - Garibaldi, que em sua terra lutou para unir, realmente esteve por aqui, se não me engano na década de 20, a lutar pela independência de um estado sulista. – esclareceu o major, profundo conhecedor das guerras e revoltas do período – E era realmente brasileira, a bela Anita.

                    - Uma mulher espetacular! – exclamou Isabel ruminando o golfo indigesto – Uma, das várias, que esse país produziu e com certeza produzirá...

                    - Stupid woman! – lançou o veredicto o canadense.

                    - Mudando de assunto. – Interveio Burton, fingindo que a frase do canadense era dirigida para Anita e não para sua esposa – Como tem cachorro nesta estrada. Alias, como é rica a fauna domestica, solta ao longo do caminho. È uma verdadeira profusão de porcos, galinhas, gansos e esses indescritíveis abutres, que andam todos a coletar dejetos.

                    - Realmente Mr.Burton, o Brasil se transformou no zoológico do Mundo. – esclareceu com ciência de causa o biólogo e botânico Mr. Morrit – Esses séculos de ocupação lusitana, aliada a constantes invasões de outros povos, deram a fauna, e por que não dizer a flora brasileira, um caráter universal. Temos aqui galinhas d’angola, patos italianos, gansos franceses e toda espécie de plantas e animais adaptados a esse ambiente acolhedor. Em breve, não saberemos mais o que é legitimamente nacional nesse país. Temo ver um dia, elefantes andando pela rua.

                    - Até mesmo, toda espécie de gente é admitida nesse paraíso tropical – ressentiu Burton ainda chateado com o canadense e confuso pela recorrente presença de um elefante em sua vida – Espero que o Imperador, que por sinal, é meu amigo pessoal, ponha um fim nessa enxurrada de pessoas ignóbeis, inúteis e mal-humoradas – ameaçou veladamente.

                    - Temo que o oposto irá ocorrer, caro amigo – cantou o músico, Mr. Liverpool – Se resolver seguir o exemplo norte-americano, abolindo a escravidão, o imperador brasileiro terá que importar em maior escala, a mão de obra dessa gentalha.

                    - Mas não vejo motivo. Basta empregar a mão de obra dos libertos – falou inocentemente o major – Esses negros me parecem bastantes fortes e capazes para o trabalho.

                    - Ledo engano, caro amigo. – intercedeu o Sr. Morrit – Não se deixe levar pelas aparências. Esses escravos brasileiros não se adaptarão a liberdade. A indolência é característica marcante dessa miscigenação tropical. Note! Quase não se vê um negro puro pela janela. São todos pardos nesse país, inclusive os ditos, brancos. Garanto-lhe que os negros, a partir de sua emancipação, não serão a força motriz desse país.

                    - Stupid black power ! – vociferou, vocês sabem quem.

                    - O desmazelo, já notei, é também uma característica a ser ressaltada – disse Burton, temendo voar no pescoço do canadense – Mas não somente nos negros e pardos. O povo brasileiro me parece não ser muito adepto a laboriosa arte do trabalho.

                    - Sou obrigado a concordar com o amigo – concordou o Sr. Liverpool, temendo pela sorte de seu cravo, que viajava empacotado na traseira da diligência – But God save the Queen! Alguém pode me dizer aonde esse cocheiro pretende nos lançar? Isso lá é maneira de conduzir? Eu vou reclamar formalmente a empresa.

                    - Ei! Cocheiro! – gritou o Major, com a metade do corpo para fora da cabine – Qual o seu nome? Fique sabendo que não estamos satisfeitos com sua maneira de dirigir. Exijo seu nome e número de registro, para comunicar seu descaso ao seu contratante.

                    - Pur vavor romem, fique com o cabeça no lugar, dentro do diligencia – gritou o cocheiro em um português carregado de sotaque – Eu sei bem o meu oficio e pode estarr segurro que chegarrá vivo a Juiz de Forra. Yeah! Mas se quer saberr: Meu nome é Schumaccher.

                    O cocheiro lançou o chicote de encontro ao dorso do burrinho mais próximo. O golpe foi recebido com um aumento de força. Num manejar sutil das rédeas, o alemão fez a carruagem cortar, pela direita, uma tropa de burros que ia lenta pelo meio da pista. O movimento brusco lançou todos os ocupantes da cabine para o lado direito. O major, que ainda estava com o corpo para fora da janela, quase foi lançado de encontro a uma mangueira na beira da estrada. O cravo do Sr. Liverpool, que estava embalado na traseira da diligencia, voou, pousando sem maiores danos, sobre um pé de siriguela. A Sra. Burton despejou todo seu enjôo sobre o colo desprotegido do canadense.

                    - Oh! Holly Sheet! – vomitou o canadense, misturando sua feijoada adquirida na noite anterior, ao feijão tropeiro consumido pela Sra. Burton no desjejum.

                    - Oh! Desculpe-me minha esposa mounsier. – declamou em jubilo o Sr. Burton – Eu bem avisei minha esposa que não era saudável comer essas iguarias locais no breakfast. Ainda mais tendo que viajar, em tão sacolejante meio de transporte. Ela está por demais enjoada.

                    Isabel, no decorrer da viagem, botou para fora o leite gordo bebido no pé da vaca; o resto de tropeiro recém adquirido; a galinha caipira da noite anterior e um restinho de couve do almoço. O ar na diligência estava impróprio para qualquer conversação. Todos simulavam um sono fingido. Menos o canadense, que resmungava palavrões intraduzíveis, isolado que estava no canto do banco traseiro.

                    No lado de fora do veiculo, Chico se deliciava com a perícia do alemão, pedindo a todo o momento que deixasse guiar um pouco. O alemão desprezava o pedido do brasileiro, argumentando que aquele ofício não era para qualquer um.

                    Já haviam sido percorridas 45 milhas, desde a partida de Petrópolis, em quatro horas e meia de viagem. O alemão retesou as rédeas nas mãos e freou a diligência em frente a uma pequena bodega na beira da estrada. O dono do lugar aguardava ansioso a chegada do cortejo. Era um tipo atarracado, com uma barba rala e um talo de capim entre os dentes. Debaixo do chapéu de palha que lhe cobria a cabeleira desgrenhada, seu cérebro matutava uma nova maneira de extorquir dinheiro daqueles “estrangeiros estúpidos”. O único que seria poupado da salgada conta seria o cocheiro alemão.

                    O alemão bateu energicamente na porta da cabine e com a voz mais gentil que conseguiu encontrar, anunciou:

                    - Parraibuna. Meio da caminha. Meia hrrora parra lancharr e toalete .

 

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