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CAPÍTULO 26

Brigham Young

Salt Lake City - U.S.A. – 1860

“Não é lamentável ver homens, cegos pelos preconceitos de educação, desprezarem os benefícios que lhes dispensaram os deuses? É tempo, certamente, de surgir nesta terra um Ilmo. Sr. Dr. Brigham Young.”

 Richard Burton –- Viagens as Highlands do Brasil

 

                    Burton alisa o amuleto, pendurado em seu pescoço, ao entrar na cidade dos mórmons. Lembra do seu mentor muçulmano Mirza Mohamed Ali, o Shirazi. Ele que lhe ensinou os princípios do Corão islâmico, onde está escrito que o homem pode ter várias mulheres, desde que seja capaz de prove-las. Mas o que Burton não havia absorvido por inteiro, era se o provimento era só material, ou se deveria também satisfazer as mulheres em outros sentidos. Ele havia optado em interpretar a lei de Maomé a sua maneira e ansiava o dia em que poderia por suas teorias em prática.

                    O portão do pequeno vilarejo foi aberto por um homem desconfiado e gordo. Burton temia que sua missiva, anunciando sua visita ao local, não tivesse chegado. O líder da seita, Brighan Young, tinha garantido que seria bem recebido por sua gente. Após a primeira impressão desagradável, Burton se deliciou com a quantidade exagerada de mulheres que viu diante de seus olhos. A cidade era pequena, mas das casas, o número de mulheres que saiam e entravam, era dezena de vezes maior do que as de homens. Burton que acabara de completar 39 anos e estava experimentando sensações novas, ficou excitado diante de tantas fêmeas a disposição.

                    Quando chegou aos Estados Unidos, no começo daquele ano, tomou conhecimento daquela seita estranha, que tanta confusão estava causando na sociedade americana. Fundada por um tal de Smith, carpinteiro de profissão, tinha suas doutrinas baseadas em um livro, encontrado segundo as coordenadas fornecidas pelo anjo Gabriel. Sempre ele, pensou Burton. No livro um tal de Mórmon relatava que vivia no século III depois de Cristo e que sua sociedade estava sendo destruída pelos indígenas americanos. O escritor previa que no futuro um novo José, no caso Joseph Smith, iria reorganiza a comunidade cristã a beira de um grande lago salgado. Sempre os lagos, pensou Burton. O livro também dizia que os seguidores de Mórmon eram descendentes diretos, de uma das tribos perdidas, que saíram pelo mundo, após a queda da Torre de Babel. A tribo dos Mórmons foi dar na atual América do Norte e lá prosperaram até que os índios resolveram arrancar seus escalpelos.

                    O fato era que Smith, segundo apurou Burton, um perfeito picareta, andou lendo alguns manuscritos, não publicados, de um escritor fantasioso e adaptou essa obra para fundar sua seita particular. Smith, juntamente com seu irmão, foram expulsos, juntamente com seu pequeno grupo de seguidores, de todas as cidades em que pregavam a palavra de Cristo revisada. Nela constava a polêmica emenda que dizia que a poligamia era um dever bíblico. As perseguições e expulsões foram muitas, até cessarem com a prisão e morte, por linchamento, dos criativos fundadores da Igreja dos Últimos Dias.

                    Agora, apenas alguns anos após a morte trágica de seu fundador, a seita havia finalmente encontrado seu lago salgado e fundado a cidade do Grande Lago Salgado. Esse ressurgimento vigoroso era obra do também carpinteiro Brighan Young. Sempre carpinteiros, raciocinou Burton. Burton conheceu o falante líder quando estava desembarcando em Nova Iorque. Chamava a atenção de todos, o séqüito de mulheres, não menos de vinte, que acompanhavam o jovial homem alinhado que retornava de peregrinações pela Europa. A tentativa de levar a Igreja para o velho continente não havia surtido o efeito desejado. Na Inglaterra vitoriana o jovem Brighan correu o risco de ter o mesmo fim de seu antecessor.

                    Burton que até então, devido suas freqüentes aventuras pelo mundo, não havia reparado, que o mesmo tinha uma parcela feminina em sua população, se encantou pelo estilo de vida do líder espiritual mórmon. Acostumado a dividir a vida com companheiros de exercito e com os carregadores africanos, essa era a primeira vez que Burton via tantas mulheres bonitas e juntas. Aceitou prontamente o convite para visitar a cidade sagrada daquela turma simpática. Mr.Young também se encantou em conhecer, em pessoa, o escritor de seu livro favorito: “Peregrinações a Meca e Medina”. Marcaram de se encontra dias depois em Salt Lake City.

                    Agora, Burton estava ali, podendo desfrutar do modo de vida daquele povo tão encantador. Na Itália encontrara o romantismo de sua adolescência, decorando a beleza das obras renascentistas. O Nascimento da Vênus, de Boticelli, servira de inspiração por diversas vezes quando de seu prazer solitário. Também sonhara e se exercitara com algumas esculturas de Leonardo e até hoje não se perdoava por ter pecado, pensando em uma madona com o seio desnudo, que não se recordava de qual autor. Na Índia tomara conhecimento da cidade sagrada aonde milhares de estátuas ensinavam a nobre arte do sexo. Foram horas e horas de folgas, bem remuneradas, a decorar posições e exercitar a imaginação. Depois veio o Kamasutra decorado no período diarréico de sua convalescença colérica. Depois sua passagem pelos países islâmicos do Oriente Médio que camuflavam suas mulheres com tanta eficiência que Burton temia abordar um Mullah ao invés de uma Sherazade. Na África as mulheres causavam em Burton, não uma repugnância, como em seus compatriotas, mas um respeito desmedido, como se tivesse a desejar uma pessoa da família. Esses pequenos desencontros da vida levaram Burton, o desbravador mundialmente conhecido, de matas virgens, cidades sagradas e lagos inexploráveis, ao centro da cidade Mórmon, tão intocado como o pico do Everest era até então. A cabeça grande daquele homem, repleta de conhecimentos, dos mais variados, não tinha a prática compatível com a teoria adquirida. Ele era agora, um vulcão preste a explodir.

                    - Sr. Burton, é um prazer inenarrável reencontra-lo. – veio de mãos estendidas o jovem Mr. Young - Já preparei acomodações á altura do grande desbravador. Espero ganha-lo para minha causa, que seria um trunfo para minha igreja. Temos tido problemas com nossas diretrizes e um homem de sua importância e fama seria um baluarte para nossa humilde religião. As pessoas não entendem, que a poligamia é muito mais do que simplesmente ter várias esposas. È uma dádiva dos céus. Um direito e, sobretudo um dever divino. Não saberia explicar como esse mundo teria sido povoado se Adão não tivesse corneado nossa querida Eva. Seria uma tarefa sobre-humana querer que apenas uma mulher parisse toda essa gente.

                    - Certamente...- balbuciou Burton completamente desnorteado pelo linguajar e pelas maneiras pouco religiosas do líder que se coçava como um macaco – Mas certamente, o senhor deve ter tomado conhecimento dos estudos do Sr. Darwin, que prova de maneira irrefutável, que na verdade somos descendentes dos símios.

                    O Jovem Young puxou Burton pelo braço, para dentro de sua tenda, o afastando de toda e qualquer presença humana.

                    - Caro amigo, pelo o que me tomas? Um tolo? Cá entre nós, não acreditas realmente que creio em parábolas bíblicas. Acredita? - demonstrando um ar mais safado do que o que já demonstrava em público. – Eu descubro a melhor maneira do mundo de levar a vida. Espero compactua-la com um dos meus maiores ídolos.E o que acontece? Ele me toma, seu maior fã, por um idiota qualquer. Vou lhe contar minha triste história, mas espero contar com sua mais absoluta discrição. Eu caminhava por esse mundo de trevas sem sentido e direção. Perambulei por todos os Estados sempre a procura de fortuna. Tentei o comercio, a política, tentei até mesmo o exercito, mas em nada dava sorte. Embrenhei-me entre os maçons para ver se conseguia um empurrão na minha vida financeira. Mas quando me pegaram tentando vender uns segredos, quase tive o fim do velho Smith. Tive que mudar de cidade e de nome. Na verdade me chamo Joseph. Joseph Jackson. E nunca fui carpinteiro em toda minha vida. Quando descobri esses pobres órfãos de religião, do finado Joseph Smith, que Deus Todo Poderoso e Amado o tenha em bom lugar, tive a luz divina de guiá-los até aqui... Eu sei que pode esta pensando que isso é uma coisa ruim. Que eu estou mentindo para essa gente. Mas não irmão Burton! Não! Isso não é verdade! Eu amo esses meus filhos como Jesus, se fosse vivo, os amaria. E quem impôs o livro para eles não fui eu e sim o velho Smith, que Deus Todo Poderoso o tenha em bom lugar. Eu só, com sacrifício de minha própria identidade e convicção, não deixei essa obra morrer, que era o destino certo dessa gente. Eu amparei uma seita débil e moribunda e a transformei em um alento para essa gente. Escreva o que lhe digo, irmão Burton. Num futuro não muito distante enviarei membros de minha religião, por todos os cantos desse planeta e minha corporação será mais poderosa do que a daqueles maçons idiotas. E lógico que para isso preciso de dinheiro, que sem dinheiro não se faz nada, e por isso peço ao amigo que contribua com nossa campanha. Pode ser qualquer quantia irmão Burton, mas o Senhor está vendo sua generosidade. Vamos! Venha! Vou leva-lo aos seus aposentos aonde terá o tratamento de um príncipe.

                    Cruzaram todo o centro da grande praça da cidade. Varias construções estavam em ritmo acelerado. Entraram em um prédio de dois pavimentos e subiram a estreita escada. O quarto de Burton ficava de frente para a praça e a Igreja recém construída. Estava decorado com motivos orientais, com grande quantidade de almofadas e tapetes. Um narguele estava colocado no centro do quarto.

                    - Eu sei de suas preferências orientais, Irmão Burton – disse Young pitando o bico do narguele e testando seu conteúdo – Espero que goste da infusão que mandei preparar. Eu prego aos meus filhos uma vida mais austera, mas convenci algumas devotas a abrir uma exceção essa noite, em homenagem ao visitante ilustre da cidade. Espero que após essa noite, irmão Burton, o senhor professe o nosso modo de vida para todo o Mundo. Não lhe peço conversão que isso não é para nós, homens de inteligência apurada, mas peço que entenda o espírito dessa vida pequena e triste. Como eu poderia viver sem esse meu luxo? Boa noite Mr. Burton. Divirta-se.

                    Young saiu fechando a porta atrás de si. No mesmo instante, sete mulheres deslumbrantes, com roupas orientais, entraram bailando no recinto. Sete novamente, conseguiu lembrar Burton. Uma música excitante saiu de alguma fresta oculta. As sete bailarinas cercaram a vitima que já estava abatida sobre os almofadões.

                    Burton pitou o narguele uma única vez. Quatorze mãos começaram a despi-lo. A mente daquele homem, alojada naquela cabeça descomunal, que agora pulsava, tentava colocar em uma ordem aplicável, todas as teorias aprendidas ao longo de uma vida.

                    Os detalhes seriam por demais impróprios para esse livro. Seriam necessários dezenas de volumes para descrever o que ocorreu naquela noite, naquela pequena cidade as margens do Lago salgado.As mãos se fundiram, os corpos se grudaram, os desejos e mentes se digladiaram e os prazeres foram muitos. Muitos e todos. Podemos apenas resumir que aquele homem nu, entre sete mulheres nuas, manteve apenas um pequeno colar no pescoço. Herança de uma aventura passada. E o pingente do colar mudou de tom várias vezes, de límpido branco a negro profundo.

                    Na manhã seguinte Burton acordou com um sentimento novo. Sabia o sentido da palavra: saciado. Deixou a cidade sem alarde e tomou um trem em direção à costa leste. Tinha na mente toda uma mudança de vida. Conhecia agora um prazer simples, que ignorara há tanto tempo. Queria recuperar o tempo perdido. Irei mudar de vida, decidiu Burton.

                    Dias depois, ao embarcar em Nova Iorque, rumo a Londres, pensava na nova vida que iria adotar. As aventuras não mais lhe provocavam comichões e frenesi. Agora ele queria uma vida de ser humano normal. Prazeres normais.

                    Foi planejando seu futuro que ele viu seu futuro a sua frente. Aquela jovem debruçada sobre a murada do navio. Ela parecia querer cair da nave. Burton correu ao seu encontro e a enlaçou pela cintura. O gesto foi recebido com um bofete sobre a cicatriz somali. Ela estava simplesmente apreciando as baleia que acompanhavam o navio. Mas os olhares se cruzaram e o encanto foi recíproco.

                    -Qual o seu nome? – perguntou um seguro e sedutor Richard Burton, parecendo até mesmo o futuro galã de Hollywood.

                    - Isabel – disse a jovem de dezesseis anos que retornava da casa dos avôs paternos.

                    Burton amadureceu durante os dias de viagem o relacionamento com a jovem. Os olhares vigilantes da mãe da moça eram burlados com facilidade. Eles se encontravam todas as tardes na proa do navio. Burton após aquela noite única passada no harém mórmon, achava-se o rei do Mundo e gritava isso aos quatro ventos, abraçado a sua bela Isabel, dependurado na grade frontal da embarcação. Juraram todas as juras de amor, comuns aos apaixonados. Agora tinha uma mulher só sua e poderia talvez até começar um plantel como o de Young. Aquela noite única seria repetida várias vezes. Se...

                    Se aquela noite única, não ocorresse uma única vez na vida de um homem.

                    Após aquele excesso, extremamente excessivo, o corpo de Burton nunca mais seria o mesmo.

 

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